CLIFOPSI - Clinica de Fonoaudiologia e Psicologia

Bem vindos à CLIFOPSI - Clinica de Fonoaudiologia e Psicologia. Buscamos reunir informações e textos na área de Psicologia e Fonoaudiologia, bem como indicar livros, artigos e sites que consideramos interessantes relacionados à nossa área.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Benditos gavetões: livro Psi/contos - Creuza M Salvaterra



Paolo era um rapaz muito ansioso. Vivia se preocupando com o futuro, com o que poderia acontecer e achava que nada ia dar certo. Pensava e repensava, na intenção de solucionar um problema antes mesmo dele surgir.
Com isso, vivia no “mundo da lua” pois estava todo o tempo no futuro, estando desconectado do presente.
Dia após dia, lá estava ele, às voltas com seus pensamentos.
As pessoas costumavam achar que era meio maluco, sempre com o semblante fechado, parecendo falar sozinho.
Paolo achava que os dias estavam diminuindo, que não dava tempo para pensar tudo o que precisava e que o tempo gasto no trabalho era um impedimento para a resolução de seus problemas.
Um dia, pensou tanto que ficou esgotado. Seus pais o encontraram no quarto, pois não havia ido trabalhar. Estava com os olhos esbugalhados, falando incessantemente coisas sem nexo.
Preocupados, correram com ele para o hospital.
Ao se recuperar, Paolo ficou preocupado com o rumo que seus pensamentos estavam tomando e resolveu compartilhar com os pais o que estava se passando.
Seus pais  o aconselharam a procurar ajuda.
Paolo ficou aliviado por ter compartilhado seu problema com os pais e ai teve uma idéia. Iria dividir os pensamentos, ou seja, separa-los, compartimenta-los, como se fosse coloca-los em gavetas. Imaginou primeiro a divisão em: passado, presente e futuro. Visualizou três grandes gavetas e etiquetou-as: passado, presente e futuro. Enquanto criava já punha em prática sua idéia.
Depois, deixou sua mente livre e, à medida que os pensamentos vinham, imaginava coloca-los em uma das gavetas.
Gastou um longo tempo nessa tarefa.
Depois, decidiu organizar cada “gaveta”. Optou por começar pelo passado. Visualizou várias divisões e se imaginou etiquetando-as, de acordo com o tema pensado.
Fez isso também com o presente e com o futuro.
Riu. Pensou que, se dissesse isso a alguém, pensaria que ele estava louco.
Apesar de achar graça, sentiu-se bem com os gavetões.
Foi até a agenda e marcou nela um horário para rever cada assunto no dia seguinte.
Ah... que alivio... que sensação gostosa...
A partir daquele dia, Paolo, conseguiu se organizar mentalmente, sempre separando seus pensamentos como se os colocasse em compartimentos e resolvendo os problemas na medida em que surgiam, deixando que o futuro se encarregasse de resolver os que aparecessem.

sábado, 6 de agosto de 2011

A vida é como um rio - livro: Tudo ou nada- Roberto Shinyashiki



Tempos atrás, havia dois povoados em certa região montanhosa do Nepal cujos moradores eram inimigos mortais. O ódio mútuo já durava alguns séculos, e os anciãos aconselhavam os mais jovens a evitar conversas com as pessoas do outro povoado.
            Essa orientação foi transmitida de pai para filho. E, como mandava a tradição, cada um passou a ensinar seu filho a odiar as pessoas do povoado adversário. Mas não era fácil para os pequeninos assimilar essa tradição. Você sabe como são as crianças: por mais que recebam uma ordem, querem sempre testar os limites e experimentar. Além disso, não resistem à curiosidade de conhecer outras crianças.
            Certo dia, um garoto de um dos povoados cruzou o caminho de um menino de outro povoado. Não resistiu e perguntou aonde ele ia.
            - Não vou nem volto, simplesmente deixo que as nuvens me levem – ele respondeu.
            O primeiro garoto ficou surpreso. Fizera uma pergunta muito simples, e a resposta era incompreensível. Então pensou:
            - Meu pai tem razão sobre o pessoal desse povoado. O que o garoto fez foi me humilhar.
            O menino ainda tentou esconder o fato do pai, mas não resistiu e acabou contando:
            - Pai, eu cometi um erro grave. Você me avisou muitas vezes para não falar com o pessoal do outro povoado, mas não resisti e conversei com um menino de lá.
            Ele repetiu para o pai o diálogo que tiveram. O pai ficou revoltado e disse:
            - Você não aprende. Tantas vezes eu lhe avisei e você faz essa bobagem. Nosso povoado foi humilhado. Agora o menino certamente está contando ao pai o que aconteceu e todo mundo está rindo de nós. Precisamos tomar uma atitude para resgatar nossa dignidade. Vou lhe explicar o que você deve fazer: amanhã, quando encontrar esse garoto, vá até ele e faça  a mesma pergunta. Quando ele responder “não vou nem volto, simplesmente deixo que as nuvens me levem”, diga: “Um dia as nuvens se transformarão em chuva e você ficará no vazio”. Entendeu? Então repita o que tem a fazer.
            Pai e filho ficaram ensaiando o diálogo que deveria ocorrer no dia seguinte. Treinaram por várias horas até que chegou o momento da vingança. Quando o garoto viu o menino do povoado vizinho, correu na direção dele e perguntou:
            - Aonde você vai?
            E o outro respondeu:
            - Aonde minhas pernas me levarem.
            Novamente o primeiro garoto ficou surpreso. Não era possível, fora enganado de novo! Quando voltou para casa, o pai lhe perguntou sobre o diálogo. Ao ouvir o que havia acontecido, ficou enfurecido e disse:
            - Eu não avisei? Eles não prestam. Querem sempre nos ridicularizar. De novo você foi derrotado pelo filho daquele sem-vergonha. Agora precisa fazer algo para resgatar nossa honra. Amanhã vai falar com ele e fazer a mesma pergunta. Quando ele responder “Aonde minhas pernas me levarem”, diga: “Você tem de obedecer ao seu coração”. Entendeu? Você não pode falhar. Se perder mais uma vez, seremos humilhados para sempre.
            E novamente eles ensaiaram o diálogo horas a fio até que chegou o grande momento. Quando o garoto viu o menino do povoado vizinho, foi até ele e novamente perguntou:
            - Aonde você vai?
            E  o outro respondeu:
            - Vou ao mercado comprar frutas.

A vida não respeita ensaios. Ela tem um vaivém natural. Apesar de todos os preparativos,
a vida é como um rio. Ela tem o próprio fluxo.