José tinha 13 anos. Filho de pedintes. Tinha 3 irmãos, sendo dois irmãos e uma irmã. Eram muito bravos, brigando sempre pelas, mesmo quando pediam. A mãe também era brava. Do pai nada sabemos.
Tinha uma deficiência física. Havia se machucado em uma brincadeira, há muitos anos. Assim como sua família, estava sempre com a expressão fechada. Difícil vê-los sorrir.
Cursava há anos uma turma chamada Classe Especial. Era uma classe para alunos que tinham dificuldade em acompanhar a turma. Deveriam ser trabalhados mais de perto em suas dificuldades para, posteriormente, retornarem à classe do Ensino Regular. Porém, para que isso acontecesse, precisaria passar por uma avaliação psicopedagógica. O problema é que não havia profissionais para avalia-lo e, por isso, freqüentava aquela turma há tempos.
Tinha vergonha daquela situação e pensava
em desistir. Sua sala era geralmente em corredores, na cozinha, onde houvesse espaço. As atividades eram sempre as mesmas: pintura, desenho, recorte. Uma chatice. Tinha capacidade para realizar outras atividades.
Até que um dia a rede municipal contratou um profissional da área psi. Agora teria sua chance.
Feita a avaliação, percebeu-se que José estava desperdiçado, pois tinha potencial para estudar no Ensino Regular, não deveria estar ali. Naquela idade e com os estímulos adequados, poderia estar na 7ª serie.
José foi encaminhado para a 1ª série, visto que precisava seguir o curso “normal”, saindo da Classe Especial para o inicio no Ensino Regular.
Feito isso, José começou a experimentar uma nova situação. Naquela idade e daquele tamanho (era mais alto que os colegas de 1ª série), seria o momento de enfrentar novos problemas: não poderia freqüentar a escolar diurna, pois sua condição não permitia ficar na classe dos pequenos de 6 e 7 anos.
Não sabemos que caminhos José trilhou e ficamos a pensar: quantos Josés teríamos nesse pais? Crianças que, por ter uma deficiência física e pais sem condições para defende-los se submetem a situações tão injustas?! Pela falta de estímulos ambientais aliada à falta de um olhar mais atento, talvez, ou de profissionais capacitados, vivam à mercê, esperando talvez um milagre, ou o desânimo falar mais alto e desistir da escola.
Creuza M Salvaterra