Bebel era uma pessoa muito ansiosa (Aurélio: “sensação de receio e de apreensão, sem causa evidente, e a que se agregam fenômenos somáticos como taquicardia, sudorese, etc”.). Vivia preocupada com tudo, imaginando o que iria acontecer. À medida em que seus pensamentos se avolumavam, ia ficando nervosa, agitada e seu coração se acelerava. Tinha tantos “e se” na cabeça que não conseguia responder a todos eles. “E se alguém se machucasse?”, e “se eu não conseguir dormir à noite?”, “e se a comida fizer mal?”, “E se a dor que sentia fosse alguma doença fatal, um câncer?”, “e se eu morrer?”.
Desde criança ouvia a expressão: ansiedade. Nem bem sabia o que era mas parece que todo mundo tinha aquilo. Volta e meia ouvia alguém dizer: “ Fulano é muito ansioso”, “Eu sou muito ansiosa”. Ficava se perguntando o que significava.
Nem imaginava que aquelas palpitações que tinha com freqüência e a sudorese que a assaltava vez por outra poderiam ser sintomas dessa “coisa” tão famosa.
Não comentara com ninguém e ficava atenta à freqüência e intensidade que aumentavam com o tempo.
Quando adulta, pode fazer a conexão dos sintomas com os diagnósticos de leigos que ouvira.
Resolveu fazer tratamento, já que não conseguia mais controlar as sensações.
Aprendeu que as visualizações que fazia em relação às situações que a preocupavam, gerando histórias absurdas, provocavam aquelas sensações. Era nesses momentos que os “e se” apareciam, piorando as coisas e tornando as histórias ainda mais fantásticas. Ouvira numa entrevista na tv, uma psicóloga falando sobre a perda de um parente. O entrevistador perguntou como seria se ela não tivesse saído de casa e outras coisas e ela respondeu: enterrei os “E se...?”. Ele se surpreendeu com a resposta e ela explicou que havia decido que os “E se...?” deveriam ser enterrados porque ela não teria resposta a eles. Senão ficaria presa e não elaboraria o luto da perda. Que é preciso fazer o enterro para elaborar o luto.
Bebel gostou do que ouviu. Entendeu que poderia aplicar isso em sua vida. Os “E se...?” não passam de suposições e, como tal, não pertencem a nenhum tempo: passado, presente ou futuro. São apenas suposições que dão margem à construção de histórias e, consequentemente, prendem a pessoa à situações que precisariam aprender a lidar.
Bebel passou a perceber que essas expressões ocupavam quase todo o espaço da sua mente. Como não tinha respostas, ficava atordoada, fazendo mais e mais perguntas.
Com essa percepção e a decisão de enterrar as expressões e perguntas, conseguiu diminuir os sintomas. Alem disso, introduziu exercícios de respiração, sempre que se sentia ansiosa. Eles a ajudavam a relaxar, principalmente porque se concentrava na contagem (1 a 4 ao inspirar e 1 a 4 ao expirar, lentamente), imaginando a cor do ar que entrava e saia. Com isso, mudava a atenção dos pensamentos ruminantes para si mesma, para seu corpo.
Com o tempo não precisou mais de medicação, que foi retirada com acompanhamento médico. Conseguia identificar os primeiros sinais de ansiedade e, alem da respiração, focava no momento presente, evitando as visualizações de um suposto futuro. Conseguia diferenciar fazer planos de criar historias baseadas em sensações de medo e pessimismo.
Focando no presente e vendo a vida por um ângulo otimista, passou a perceber o quanto sua vida era boa, quantas coisas já tinha adquirido e que antes não valorizava. Começou a pesar, numa balança imaginária, os acontecimentos bons e os ruins de sua vida e viu que os bons eram em quantidade muito maior do que os ruins. Ficou muito feliz com isso. Sendo assim, valorizando as pequenas e grandes realizações, seguiu sua vida com mais tranqüilidade e paz.
Creuza M Salvaterra
Creuza M Salvaterra
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