CLIFOPSI - Clinica de Fonoaudiologia e Psicologia

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sábado, 14 de janeiro de 2012

Sabedoria de mãe - Creuza Salvaterra



Babi chegou em casa abafada. Seus nervos estavam à flor da pele. - “Que dia!” exclamava – “Pensei que não fosse acabar nunca”.
Sua mãe, sábia, ficou a olhar a filha sem dizer nada, apenas a observava.
Geralmente era assim: a filha chegava brava, cuspindo marimbondo como dizem, e demorava um tempo para se acalmar. Se a mãe dizia alguma coisa, tentando acalma-la era pior. Por isso aprendera a respeitar esse tempo para que a filha pudesse respirar, relaxar e incorporar outro papel, o de filha. Nesse momento, conversava, reclamava, mas num tom mais brando, apreciando o colo que sua mãe sempre lhe dava. Isso acontecia após um banho, roupas limpas, frescas e um bom lanche que sempre encontrava preparado, à mesa.
Nesse dia não foi diferente. Após o descanso e lanche, disse à mãe: - “tô atolada na merda”. A mãe, com sua tranqüilidade de sempre perguntou: - “é mesmo, filha? então, tudo na sua vida tá uma merda?”
Nina sorriu ao ouvir a expressão da boca da mãe. Ponderou: -“Não é bem assim, mãe. Nem tudo. Penso que a maioria das coisas”.
- Sei, disse a mãe. Então, a saída com as amigas hoje à noite melou?
Babi achou graça novamente na gíria usada pela senhora.
- Não, tá combinado. Vou sair com as amigas daqui a pouco. Tá tudo certo.
- Hummm. Você tem dinheiro ou quer algum emprestado?
- Obrigada, mãe, eu tenho sim. Fiz vale hoje.
- Ótimo. Já pensou em qual roupa vai usar ou não tem nenhuma adequada?
- Tenho sim, lembra que comprei algumas peças na semana passada com aquele dinheirinho que sobrou? Então!
- Teve muito serviço hoje?
- Tive sim, mas consegui fazer tudo a tempo e até adiantei alguma coisa pra amanhã.
- Maravilha filha.
A conversa se estendeu por um tempo até que Babi foi se vestir. Voltou cheirosa, maquiada e bem animada.
A mãe então perguntou:
- Filha, você chegou dizendo que tava atolada na merda... estava falando de quê?
- Sabe mãe, depois de nossa conversa, penso que minha vida é ótima: tenho amigos, liberdade, uma graninha pra sair de vez em quando, um trabalho do qual eu gosto, roupas bacanas e uma mãe maravilhosa. Eu só estava aborrecida porque perdi o ônibus que vem até perto de casa e tive que andar alguns quarteirões. Como estava com saltos um pouco altos, meus pés ficaram doendo e, pra piorar, um dos saltos quebrou. Mas minha vida não se resume a isso, não é mesmo? Eu poderia deixar um calçado de salto alto no trabalho e ir com outro um pouco mais baixo, assim, evitaria esse transtorno todo. Entendi que fui eu a responsável por tudo o que aconteceu ainda mais que perdi o ônibus porque quis adiantar algum trabalho de amanhã. Se tivesse feito só a cota de hoje, teria chegado a tempo e não perderia uma sandália.
Bom, foi isso. E você, com sua sabedoria, sem me dar bronca nem dizer nada, soube me mostrar tudo isso.
Vou indo, beijo.


                         















domingo, 18 de setembro de 2011

Maneiras de dizer as coisas



       Uma sábia e conhecida anedota árabe diz que, certa feita, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Logo que despertou, mandou chamar um adivinho para que interpretasse seu sonho.
       - Que desgraça, senhor! Exclamou o adivinho. Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade.
       - Mas que insolente - gritou o sultão, enfurecido. Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui!
       Chamou os guardas e ordenou que lhe dessem cem açoites. Mandou que trouxessem outro adivinho e lhe contou sobre o sonho.
       Este, após ouvir o sultão com atenção, disse-lhe:
       - Excelso senhor! Grande felicidade vos esta reservada. O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes.
       A fisionomia do sultão iluminou-se num sorriso, e ele mandou dar cem moedas de ouro ao segundo adivinho. E quando este saía do palácio, um dos cortesãos lhe disse admirado:
       - Não é possível! A interpretação que você fez foi a mesma que o seu colega havia feito. Não entendo porque ao primeiro ele pagou com cem açoites e a você com cem moedas de ouro.
       - Lembra-te meu amigo - respondeu o adivinho - que tudo depende da maneira de dizer...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Benditos gavetões: livro Psi/contos - Creuza M Salvaterra



Paolo era um rapaz muito ansioso. Vivia se preocupando com o futuro, com o que poderia acontecer e achava que nada ia dar certo. Pensava e repensava, na intenção de solucionar um problema antes mesmo dele surgir.
Com isso, vivia no “mundo da lua” pois estava todo o tempo no futuro, estando desconectado do presente.
Dia após dia, lá estava ele, às voltas com seus pensamentos.
As pessoas costumavam achar que era meio maluco, sempre com o semblante fechado, parecendo falar sozinho.
Paolo achava que os dias estavam diminuindo, que não dava tempo para pensar tudo o que precisava e que o tempo gasto no trabalho era um impedimento para a resolução de seus problemas.
Um dia, pensou tanto que ficou esgotado. Seus pais o encontraram no quarto, pois não havia ido trabalhar. Estava com os olhos esbugalhados, falando incessantemente coisas sem nexo.
Preocupados, correram com ele para o hospital.
Ao se recuperar, Paolo ficou preocupado com o rumo que seus pensamentos estavam tomando e resolveu compartilhar com os pais o que estava se passando.
Seus pais  o aconselharam a procurar ajuda.
Paolo ficou aliviado por ter compartilhado seu problema com os pais e ai teve uma idéia. Iria dividir os pensamentos, ou seja, separa-los, compartimenta-los, como se fosse coloca-los em gavetas. Imaginou primeiro a divisão em: passado, presente e futuro. Visualizou três grandes gavetas e etiquetou-as: passado, presente e futuro. Enquanto criava já punha em prática sua idéia.
Depois, deixou sua mente livre e, à medida que os pensamentos vinham, imaginava coloca-los em uma das gavetas.
Gastou um longo tempo nessa tarefa.
Depois, decidiu organizar cada “gaveta”. Optou por começar pelo passado. Visualizou várias divisões e se imaginou etiquetando-as, de acordo com o tema pensado.
Fez isso também com o presente e com o futuro.
Riu. Pensou que, se dissesse isso a alguém, pensaria que ele estava louco.
Apesar de achar graça, sentiu-se bem com os gavetões.
Foi até a agenda e marcou nela um horário para rever cada assunto no dia seguinte.
Ah... que alivio... que sensação gostosa...
A partir daquele dia, Paolo, conseguiu se organizar mentalmente, sempre separando seus pensamentos como se os colocasse em compartimentos e resolvendo os problemas na medida em que surgiam, deixando que o futuro se encarregasse de resolver os que aparecessem.

sábado, 6 de agosto de 2011

A vida é como um rio - livro: Tudo ou nada- Roberto Shinyashiki



Tempos atrás, havia dois povoados em certa região montanhosa do Nepal cujos moradores eram inimigos mortais. O ódio mútuo já durava alguns séculos, e os anciãos aconselhavam os mais jovens a evitar conversas com as pessoas do outro povoado.
            Essa orientação foi transmitida de pai para filho. E, como mandava a tradição, cada um passou a ensinar seu filho a odiar as pessoas do povoado adversário. Mas não era fácil para os pequeninos assimilar essa tradição. Você sabe como são as crianças: por mais que recebam uma ordem, querem sempre testar os limites e experimentar. Além disso, não resistem à curiosidade de conhecer outras crianças.
            Certo dia, um garoto de um dos povoados cruzou o caminho de um menino de outro povoado. Não resistiu e perguntou aonde ele ia.
            - Não vou nem volto, simplesmente deixo que as nuvens me levem – ele respondeu.
            O primeiro garoto ficou surpreso. Fizera uma pergunta muito simples, e a resposta era incompreensível. Então pensou:
            - Meu pai tem razão sobre o pessoal desse povoado. O que o garoto fez foi me humilhar.
            O menino ainda tentou esconder o fato do pai, mas não resistiu e acabou contando:
            - Pai, eu cometi um erro grave. Você me avisou muitas vezes para não falar com o pessoal do outro povoado, mas não resisti e conversei com um menino de lá.
            Ele repetiu para o pai o diálogo que tiveram. O pai ficou revoltado e disse:
            - Você não aprende. Tantas vezes eu lhe avisei e você faz essa bobagem. Nosso povoado foi humilhado. Agora o menino certamente está contando ao pai o que aconteceu e todo mundo está rindo de nós. Precisamos tomar uma atitude para resgatar nossa dignidade. Vou lhe explicar o que você deve fazer: amanhã, quando encontrar esse garoto, vá até ele e faça  a mesma pergunta. Quando ele responder “não vou nem volto, simplesmente deixo que as nuvens me levem”, diga: “Um dia as nuvens se transformarão em chuva e você ficará no vazio”. Entendeu? Então repita o que tem a fazer.
            Pai e filho ficaram ensaiando o diálogo que deveria ocorrer no dia seguinte. Treinaram por várias horas até que chegou o momento da vingança. Quando o garoto viu o menino do povoado vizinho, correu na direção dele e perguntou:
            - Aonde você vai?
            E o outro respondeu:
            - Aonde minhas pernas me levarem.
            Novamente o primeiro garoto ficou surpreso. Não era possível, fora enganado de novo! Quando voltou para casa, o pai lhe perguntou sobre o diálogo. Ao ouvir o que havia acontecido, ficou enfurecido e disse:
            - Eu não avisei? Eles não prestam. Querem sempre nos ridicularizar. De novo você foi derrotado pelo filho daquele sem-vergonha. Agora precisa fazer algo para resgatar nossa honra. Amanhã vai falar com ele e fazer a mesma pergunta. Quando ele responder “Aonde minhas pernas me levarem”, diga: “Você tem de obedecer ao seu coração”. Entendeu? Você não pode falhar. Se perder mais uma vez, seremos humilhados para sempre.
            E novamente eles ensaiaram o diálogo horas a fio até que chegou o grande momento. Quando o garoto viu o menino do povoado vizinho, foi até ele e novamente perguntou:
            - Aonde você vai?
            E  o outro respondeu:
            - Vou ao mercado comprar frutas.

A vida não respeita ensaios. Ela tem um vaivém natural. Apesar de todos os preparativos,
a vida é como um rio. Ela tem o próprio fluxo.

domingo, 31 de julho de 2011

AUTOPSICOGRAFIA - Fernando Pessoa


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

“Viver não dói” (Carlos Drummond de Andrade)

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amore não conhecemos,
por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A Moça Tecelã - Marina Colasanti



Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.